Por que ler distopias em um mundo distópico?

Maurício Piccini
4 min readFeb 4, 2022

Se a pergunta fosse "Por que ler?", todo mundo teria uma resposta e elas seriam todas erradas, porque a resposta certa é "Porque sim."

Vivemos o fim do mundo. Apesar de tanta gente sair de casa para trabalhar, almoçar no restaurante, comprar roupas novas no shopping e até fazer fila para ir ao cinema, esse mundo acabou.

A informação não é mais insuficiente ou excessiva, ela é errada. Intencionalmente errada. Não é que nossos governantes não possam combater os problemas que nos assolam, é que eles não querem. O inimigo que quer nos matar não é estrangeiro nem alienígena, mas nosso vizinho. Que espirra na maçaneta. Que joga latas de cerveja para calar uma música. Que atira através do vidro do próprio carro.

E nosso vizinho rebate as alegações, quando dizemos que sabemos que ele quer nos matar, com a placidez ignorante de quem nega a si mesmo — a cara nem fica vermelha — num constante e interminável gaslighting.

O vizinho pode nos matar. A ida ao supermercado pode nos matar. O passeio no shopping pode nos matar. Passar na rua por alguém gripado, tomar o remédio indicado pelo governo, abraçar um familiar, buscar os filhos no colégio, receber encomendas de um motoboy descuidado, reclamar que está tendo de gastar com delivery enquanto as pessoas se amontoam em shoppings e restaurantes e ser agredido pelo vizinho que se enfurece ao rebater que na verdade não quer nos matar — nada é seguro, o mundo que conhecíamos está acabado.

Eu chamo o pijama há meses só de “roupa”, e o moço que faz minhas refeições acorda seis da manhã e pega dois ônibus lotados pra poder trabalhar a alguns quilômetros de onde estou mas eu espero que ele esteja bem.

O trabalho mudou, a escola mudou, a reunião em família mudou. Mudou a senhora que vende jornais. Mudou o senhor que passeia com o cachorro na rua aqui de frente. Eu acho que é o filho dele quem passeia agora e que envelheceu dez anos em dois e está parecendo o pai. Só não muda o mundo porque o mundo… esse acabou.

Nesse mundo assim, acabado, porque eu abriria um livro que fala exatamente sobre o fim do mundo?

É verdade que existe um livro chamado Utopia (na verdade: “Libellus vere aureus, nec minus salutaris quam festivus, de optimo rei publicae statu deque nova insula Utopia”), e que a ele é creditado a origem da palavra.

  • Utopia (ou-topia, não lugar, perfeito demais) — Se relermos os clássicos que mostram o que chamamos de distopia, fica claro em 1984 e em Admirável Mundo Novo que a perfeição daqueles lugares não é real. O mundo está destruído enquanto as pessoas são forçadas ou programadas a enxergá-lo como ideal. A alienação é o próprio espírito da utopia.
  • Distopia (dis é ruim, difícil, uma oposição ao conceito de Utopia) — Dizem que distopia é uma palavra criada desnecessariamente para se opor à utopia, que teria sido interpretada como eu-topia (lugar bom) em vez de ou-topia (não lugar).

O que interessa é que a utopia perdeu a ideia de lugar inexistente. Mas ela nunca foi o lugar bom.

O livro que chamamos de Utopia se propunha a mostrar os problemas sociais da Europa e projetava soluções em um “mundo novo”. Talvez a diferença era que Utopia tinha a esperança de solucionar os problemas. Nossas distopias mostram problemas que parecem não ter solução.

Falamos sobre utopia, porque o mundo em que vivemos não é perfeito. Mesmo Thomas More inventou a Utopia para mostrar que o mundo em que ele vivia era a distópico.

Leiam:

1984
A Guimba
Admirável Mundo Novo
Androides sonham com ovelhas elétricas?
A Máquina do Tempo
A Revolução dos Bichos
Eu, Robô
Fahrenheit
Filhos do Fim do Mundo
Laranja Mecânica
Não me abandone jamais
Neuromance
Nós
O Conto da Aia
O Processo
O Senhor das Moscas
Submissão

Tomas More escreveu Utopia, porque o mundo dele era Distópico em 1516.

"Quero dizer, que lemos sobre Distopias porque o nosso mundo é Utópico?"

Não. Acho que quer dizer que Tomas More tinha esperança.

Huxley, Orwell, Bradbury talvez não tivessem. Ou tinham, mas o que queriam era nos avisar sobre o que enxergavam no futuro e organizavam as ideias para que as compreendêssemos.

A literatura é pensamento organizado — ou antes a organização do pensamento.

É escolher de todas as palavras todos os significados que a gente pode
Reunir
Encadear

O que mesmo?

Nesses dias em que hoje é igual a ontem que é igual à semana que vem, precisamos nos organizar.

Mas a terra agora é plana. E terra plana não gira.

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